sábado, 28 de janeiro de 2012

Poema - José Carlos Barros

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NOS PAÍSES DEMOCRÁTICOS
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nos países democráticos
a cultura levou a
que os jogos substituíssem as guerras

os danos
hoje
são irrisórios
a propagação da estupidez quase não tem efeitos
colaterais

também por isso
o futebol é um dos melhores exemplos
do avanço
da civilização

no iraque morreram milhares de homens
na líbia é o que estamos vendo

hoje
na luz
deu-se a ocorrência em relatório de oito detenções
e parece que não mais de catorze ou
quinze adeptos
foram parar às urgências
do santa maria
com escoriações

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Aconteceu...que ainda há quem queira ser perfeito, ou o taxista neurótico

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Mal entrei no táxi e disse numa voz quase sem som onde queria ir, ele comentou o meu estado lamentando-me. É que ele precisava de falar, mas comigo assim...
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Pedi-lhe que me levasse a uma rua antiga, num bairro popular de Lisboa. Ele conhecia-a de nome mas não tinha a certeza qual era. Eu não sabia mesmo, excepto que ficava entre a Graça e as traseiras do Castelo de S. Jorge. Estávamos relativamente perto.
Lá me explicou que apesar dos seus vinte oito anos de profissão nesta cidade, há muitas ruas para as quais tem dúvidas sobre a sua localização e que gostava de ter certezas.
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Quase afónica, eu não estava muito faladora. Lá emiti uns sons pouco satisfatórios de compreensão, não lhe dizendo no entanto que aprecio mais quem tem dúvidas do que quem não as tem e afirma que raramente se engana.
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Mas ele precisava mesmo de falar. Assim, teve de deitar os foguetes, fazer o barulho do rebentamento e apanhar as canas.
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Pelo caminho foi parando e perguntou a seis pessoas o caminho, sim seis, sempre com a mesma fórmula, fosse a taxistas ou a peões, novos ou velhos, ó jovem, sabe-me dizer onde é a rua de São Tomé? Dois dedos de conversa, um agradecimento, e lá repetia a pergunta uns poucos metros mais à frente.
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Sim, porque não gosto de andar a passear os clientes sem saber o caminho certo, explicava-me de cada vez.
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Para mim foi um trajecto muito curioso. Pelos bairros onde os mouros deixaram a traça, ruas e vielas estreitas, prédios finos e estreitos, becos. Algumas casas restauradas mas muitas esventradas, mal tratadas, vidros partidos. Mas muita vida, muitas lojinhas, cafés, tascas, pessoas na rua.
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À chegada rematou, sabe, é que eu não sou perfeito!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Poema - José Tolentino Mendonça

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UM PORMENOR DE PIERO DELLA FRANCESCA
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A forma de sinceridade requerida
é a mais extrema pobreza:
pela neve sem vincar rasto
sempre caminhou
aquele que busca um amor

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Poema - Manuel António Pina

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RUÍNAS

Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Aconteceu...ter a lua como companheira

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Vou no comboio e a tarde cai. Esta é das horas do dia que mais gosto. O céu ainda está azul, limpo mas deixou de estar brilhante, e lá mais ao longe, até onde avistamos o horizonte, uma cor rosada pintou uma barra larga no horizonte.
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Há bastante tempo que a lua, redonda, cor de pérola e brilhante nos acompanha, ora ao lado, ora à frente. De vez em quando esconde-se por detrás de umas árvores. Procuro-a com alguma ansiedade e pouco depois descubro-a com alívio.
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Quase não passamos por aldeias, como aquela onde passei muitas férias em miúda. Agora, vistas daqui, quase todas as terras têm uns prédios e em muitas uma ou outra construção desinserida da paisagem, conjuntos de cubos desalinhados em cima ou ao lado, que tanto vemos no Algarve como na zona centro por onde o comboio passa.
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E continuo a ver a lua. Hoje estão nítidas as manchas interiores. Lá na aldeia da minha infância, nestes dias procurávamos distinguir o homem ou a mulher que carregavam um grande saco. Parece que cumpriam um castigo, diziam.
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As crianças destas novas aldeias, a esta hora, olham para a televisão ou jogam algum jogo electrónico.
Desconfio que não olham a lua.