quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Poema - Vitorino Nemésio

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TENHO UMA SAUDADE TÃO BRABA

Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

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Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

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Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.


sábado, 18 de agosto de 2012

Aconteceu...memórias de casas de xisto

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Foto - Magda

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Aconteceu...fuga no areal

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Pela areia fora, passa por mim a chorar. Da boca bem aberta saía um choro sonoro, forte, enquanto a cara estava toda coberta de lágrimas. Olhei à volta, não percebi se alguém o acompanhava, aparentemente estava sozinho, eventualmente perdido.
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Olhei-o de costas, lá ia ele, pequeno e magrito, talvez uns dois anos, mais mês menos mês. Sigo-o, disposta a socorrê-lo julgando-o perdido.
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Mas reparo que uma senhora que ia na mesma direcção mas bastante mais atrás, acelera o passo e ultrapassando-me, agarra-o.
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Uma da tarde na praia, num dia quente, Algarve com o seu vento levante, que nos afaga com memórias do deserto.
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A criança cruza-se comigo já ao colo da mãe, resistindo e mantendo o mesmo choro intenso e olhando para os terrenos que abandonava. O meu olhar e o da mãe cruzam-se, e sugiro quase como justificando-o que talvez esteja com sono.
A mãe pára e conta-me brevemente que não é nada disso, lá do longe viu uma bola dos senhores que jogavam raquetes e era de ideias fixas, queria-a. Comento ao miúdo, como que querendo-o acalmar, que amanhã ele poderia trazer uma bola para brincar. De forma afirmativa, a mãe diz que não vale a pena, "nunca quer nada do que lhe trazemos, só quer as coisas dos outros". E remata "É a minha sina", seguindo pela areia.
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Fiquei muito incomodada. Julgo que aquela díade, mãe e filho, precisariam de ajuda, mas num brevíssimo cruzamento esporádico de praia, que fazer?
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Poema - Jorge Sousa Braga

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O VENTO
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Por mais que tente, o vento
não consegue adormecer
se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
de bambu ou buganvília.

É por isso que o vento
arrasta as folhas consigo,
até encontrar um abrigo,
onde possa adormecer.
- arrastou até a folha
onde eu estava a escrever!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Acontece...verão com vento forte

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Foto - Magda