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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Aconteceu...a cultura pirosa, perigosa e outras coisas que tais

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Lá em casa da D. Dores via-se sempre a telenovela portuguesa, que ao menos trata dos nossos assuntos, como ela dizia às clientes enquanto lhes arranjava os cabelos.
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A inveja, a competição que nas novelas era retratada, levando a atitudes quase criminosas, era discutida como se de assunto filosófico se tratasse, e ela tinha sempre as suas opiniões bem fundamentadas. O que é preciso é subir na vida, era o seu lema.
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A Vanessa, a filha, saía da escola e ia para o salão. Ali ficava a ouvir.
Aprende, dizia-lhe a mãe, tens de subir na vida, tu és tão bonita!
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E ainda um bocado enfezada nos seus 13 anos, e já a mãe a maquilhava para lhe tapar as borbulhas de acné da testa e a vestia de forma a impressionar. Na sala ensaiavam como olhar, como se mexer, como seduzir.
Juntas viam as telenovelas e todas as reportagens com as namoradas de alguns craques do futebol, onde também se aprende muito. Boquinhas, olhinhos, saias levantadas e decotes a deixar entrever o resto, assim foi crescendo a rapariga.
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Começou a inscrevê-la nas agências de modelos.
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Teve a sorte de encontrar um homem maduro do métier que a integrou e a chamava para umas sessões de fotografias. Julgava-se modelo. Dava-lhe uns trocos e mais algumas coisas.
A mãe, que nunca tinha lido a Lolita, babava-se e dizia às clientes que ela havia de ser a Naomi.
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Aos 18 anos já não havia segredos, a Vanessa sabia tudo, ou melhor sabia-a toda!
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O pai? Esse nunca disse nada, há muito tempo que tinha saído para comprar cigarros e nunca mais tinha voltado.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Aconteceu...que o avô era cego!

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Da janela da minha sala vejo nuvens brancas, espessas. Se olhar pela outra janela, mais para nordeste, as nuvens são uma mistura de branco e cinzento. De ambos os lados se vê um azul muito bonito que fica por cima delas. Algumas estão tão ligadas entre si, que fazem grandes corredores, deuses e figuras da mitologia. Ali mais longe, está uma que é claramente um castelo. Tem ameias e torreões nas extremidades. Não consigo ver guardas, princesas, príncipes, rainhas ou reis, mas posso imaginá-los. E poderia deixar-me voar por entre elas, entrar e tomar conhecimento com os seus habitantes. Depois contava-vos a história "verdadeira" da minha viagem.
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Aprendi muito cedo com a minha Mãe este jogo de inventar. Deitadas no chão em cima das ervas ou na areia da praia, viajávamos ambas pelo céu fora. Aprendi também a fixar um ponto e deixar-me ser atraída por ele, como se uma força me elevasse do chão. Disto, embora me tenha acontecido nunca gostei, era uma espécie de vertigem que eu não comandava.
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Estes jogos simples e criativos, muitos miúdos de hoje nunca fizeram. As maquinetas electrónicas não os têm.
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Um dia conversava eu com o João de 7 anos, quando ele gritou apontando para o céu "Olha ali, é mesmo um carneiro!". E era, sem dúvida nenhuma, mais uma ovelha, mais outra, e outra, lá veio o cão e incrível, por fim até vimos o pastor. O João olhava e criava cenários que ia completando. E conversando foi-me contando que era brincadeira frequente lá em casa.
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Até aqui tudo normal. Mas quando percebi que era o avô o promotor do jogo, emocionei-me. É que o avô era cego!