quinta-feira, 10 de março de 2011

Aconteceu...que nesta época os gatos são os donos

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Alguns aldeamentos no Algarve quase só têm habitantes no verão. Começa o tempo quente e aos fins-de-semana começam a ver-se algumas pessoas, uns feriados que fazem ponte; mas em Julho e Agosto é que todas as casas ficam cheias.
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Há no entanto uma ou outra casa habitada, muitas vezes por estrangeiros que fogem para a terra deles no verão. Fazem bem, no sossego é que isto é simpático.
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Mas hoje percebi que há outros habitantes que se apropriam dos espaços.
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Preto, muito preto, estava um gato deitado na grelha superior do barbecue. O sol batia-lhe de chapa, e eu imaginei como se devia estar ali bem.
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Sem me pedir licença, eis que pela porta que dá para a açoteia, vulgo terraço noutras paragens, um gato tigrado cinzento olha-me lá de fora com curiosidade. Levanto-me para pegar na máquina fotográfica e o bichano, naturalmente fugiu. Segui-o. Com um salto enfia-se pela buganvília e meio escondido pára e olha-me virando a cabeça para mim. Tiro-lhe umas fotos e recolho-me à sala. E eis, que atrevimento e que confiança, o vejo à porta de casa e se propõe entrar. Está magrito coitado, e é novo. Olha para a sala, uns passos e está no quarto, mas quando me aproximo sai a correr e foge pelos telhados.
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Olho mais longe, e lá está mais um, deitado num terraço, ao sol.
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São eles os donos do aldeamento nesta época do ano. O espaço é deles. Pouco exigentes, procurando o calorzinho e se lá ficam a espreguiçar-se. Esperava-os mais ariscos.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Aconteceu...Fotos de desenhos nos passeios

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...................................Fotos - Magda

terça-feira, 8 de março de 2011

Poema - José Tolentino Mendonça

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PARA LER AOS NOVIÇOS
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Deus não aparece no poema
apenas escutamos a sua voz de cinza
e assistimos sem compreender
a escuras perícias
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A vida reclama inventários e detalhes
não a oiças
quando inutilmente perscruta as sequências
do seu trânsito
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Só há um modo verdadeiro de rezar:
estende o teu corpo ao longo do barco
que desce silencioso o canal
e deixa que as folhas mortas dos bosques
te cubram

segunda-feira, 7 de março de 2011

Aconteceu...Há afogados que não descobrem bóias que estão perto, só olham para longe.

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Francisca parou, demorou uns largos segundos a reagir, e depois sorriu-nos.
Estava lenta, faltavam-lhe as palavras no discurso, tanto o tempo de silêncio. Depois foi acordando e horas mais tarde falava como sempre a conhecemos.
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Estar sozinha custa mas foi a sua opção. Quase por obrigação. Ficar com quem?
Tem muita gente próxima, mas são todos distantes uns dos outros. Cada um na sua, uns zangados, outros oportunistas seguem o lema do aproveita o que pode e segue.
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Sobra a Maria que está mais presente e é a que se preocupa mais. Mas juntas fazem faísca.
O que faz com que ela não conte com essa, vê-a até só com um olho, quero dizer, só vê as partes negativas. E porque é um bocado instável, di-lo a quem aparece. Cria um péssimo clima.
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Há um que nunca telefona nem aparece. Esse é o óptimo!
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Quem dizia "Plus je connais les hommes, plus j'aime les chiens"?

sábado, 5 de março de 2011

Poema - Nica Magno

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E agora que o ventou levou
O que eu sentia,
Vivo sempre na monotonia.
Acordar, fingir que penso,
Não sentir mais.
Só o vazio.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Aconteceu... o que os outros vêem em nós e nos convencem do que somos. Às vezes impedem-nos o futuro.

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Não há ninguém que não tenha álgum aspecto positivo.
Mesmo a pessoa com maiores dificuldades têm qualquer coisa boa em si. Pode ser bonita, sem doenças físicas, simpática, divertidas, prestáveis, gostar de cozinhar, sei lá! Mas na escola não funciona, não aprende e é mau estudante.
Pronto, para muitos pais todo o resto positivo se apaga e só sobra o aluno.
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Muitas famílias só valorizam as capacidades académicas dos filhos. As conversas são sobre a escola, da maneira mais restrita.
Aos filhos perguntam "o que comeste ao almoço? portaste-te bem? tens trabalhos?". Esta conversa para alguns é diária e única. O que faz com que conversar com os pais seja uma chatice.
Mas mais grave, muito grave mesmo, é que muitos pais não conhecem verdadeiramente os filhos, nas suas qualidades, capacidades e qualidades. Desde que na escola não progrida, todo o resto fica apagado e desvalorizado.
Ou seja não os conhecem de forma mais profunda, só os conhecem através do seu desejo posto no filho.
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Isto é trágico. É exigido a certas crianças e jovens o que eles não podem dar. E só é valorizado o que não conseguem dar. Todas as qualidades são desvalorizadas.
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Muitas vezes isto resulta de atitude de negação dos pais. Já lhes foi dito, explicado, exames, relatórios, mas é demasiado duro para que eles possam ouvir.
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São famílias muito infelizes. Os filhos podem não conseguir reconhecer e valorizar as outras qualidades que no também têm. Tudo o que lhes reconhecem não presta. Resultado, são todos muito infelizes e têm vidas de insatisfação.