No início da minha vida profissional, quase todos na equipa éramos fumadores. Fumava-se antes, durante e depois das reuniões, fazendo com que o ambiente fosse semelhante a um dia de grande nevoeiro, baço e translúcido.
Havia médicos que fumavam durante as consultas, mesmo que o cliente fosse uma criança.
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Nos anos 80, 90 e 2000, verifica-se uma diminuição de adultos fumadores, mas aumenta o tabagismo nos adultos jovens e também nas crianças pré adolescentes. Não temos estudos epidemiológicos em Portugal que nos forneçam dados, é mais um conhecimento por evidência.
Não ouvi ainda nenhum dos pré adolescentes ou um pouco mais velhos falarem-me nos seus hábitos tabágicos com preocupação. A maior parte esconde, mas outros sentem nisso algum orgulho, forma de se afirmarem como crescidos, de serem aceites em certos grupos.
Este acessório postiço como forma de se afirmar para o exterior pode esconder nesses jovens uma fragilidade interna que fica menos acessível aos outros com algumas atitudes como esta.
O tabagismo precoce pode ser definido como o fumo de 10 e mais cigarros por dia.
Alguns podem iniciar-se cedo, tão cedo como aos 8 anos, em crianças sem famílias ou com famílias desorganizadas e que protegem pouco.
Não admira pois que, a par do consumo precoce de cigarros, este último grupo de crianças apresentem frequentemente outras dificuldades, como rendimento escolar deficitário, alterações de comportamento, absentismo escolar, podendo se deixados entregues a si próprios, vir a engrossar o número dos que acabam por abandonar a escola e outras situações que os colocam à margem da sociedade.
A resolução deste problema não pode começar na consulta dos psicólogos ou pedopsiquiatras. É um problema social e quem tem acesso a estas crianças e famílias é quem com elas lida desde cedo, serviços instalados na comunidade, cuidados primários de saúde, serviços sociais, creches, escolas. Enviar aos serviços de especialidade médica anos depois dos quadros psicopatológicos instalados é como apagar o lume depois do leite entornado.
A resolução deste problema não pode começar na consulta dos psicólogos ou pedopsiquiatras. É um problema social e quem tem acesso a estas crianças e famílias é quem com elas lida desde cedo, serviços instalados na comunidade, cuidados primários de saúde, serviços sociais, creches, escolas. Enviar aos serviços de especialidade médica anos depois dos quadros psicopatológicos instalados é como apagar o lume depois do leite entornado.