sábado, 7 de julho de 2012

Acontece...que a saúde dos portugueses não pode ser uma treta.

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Sinto que estamos a viver um período da treta. Talvez por isso, o poema do poeta e médico que postei na 5ª feira passada, Ladaínha, me fez tanto sentido.
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"Troikas", "trikas", déficits, cursos superiores tirados à pressão, apoio a entidades privadas, desapoios a entidades públicas, impostos acrescidos para quem não é rico e é só trabalhador, umas inovações estranhas a nível escolar, e uma destruição do SNS (serviço Nacional de Saúde) que, como técnica e utente me toca particularmente.
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Um país que fez uma enorme evolução, apetecia-me escrever revolução a nível da saúde, alguém se lembra de como éramos há quase 40 anos? Hoje atingimos em muitas áreas da saúde níveis europeus nomeadamente a saúde materno infantil , índices de mortalidade, morbilidade infantil, desenvolvimento dos programas de Prevenção Precoce (para o desenvolvimento infantil), etc
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Só que hoje há equipas que diminuíram o número de técnicos, valências que acabaram - professores, educadores, psicomotricistas e outros foram desaparecendo das equipas de saúde mental infantil, deixando-as com menos recursos para actuarem. Pela Carta Hospitalar recentemente conhecida, muitos hospitais vão deixar de ter pedopsiquiatria. Ficaremos quase como há umas décadas atrás.
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A saúde deve ser vigiada. A prevenção é um sinal de qualidade de saúde. Sai cara? Não, pode poupar muitos gastos.
Quem manda parece só querer gente doente.  Não faz nenhum sentido "expurgar das listas dos médicos de família os utentes que há mais de 3 anos não tenham utilizado os respectivos serviços, dando o seu lugar a um utente sem médico de família", como recentemente foi determinado superiormente. Se até nem dão trabalho, porque castigá-los? E se há muitos doentes sem médico, porque não preencher os lugares vagos do quadro médico?
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Ainda ontem necessitei de um item diferente para dar alta a uma criança. É que não tem dinheiro para as viagens até ao hospital, nem para o medicamento diário, que segundo avaliação dos professores, é essencial para a sua integração e aprendizagem escolar. Não ficará melhorado, nem faltou às consultas, só que não pode voltar.
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Os quadros de pessoal devem estar cheios de vagas. Por morte, reforma ou passagem para o privado, tem havido um emagrecimento enorme do quadro técnico, relativamente às últimas décadas. Dizem: preencham-se as necessidades por contratação barata, enfermeiros a menos de 5€/hora, esqueçamo-nos da qualidade, é preciso é pessoal, médicos mesmo se sem grande qualificação específica, sem exames de avaliação que garantam a qualidade do saber e do fazer, que garantam que as chefias o são por mérito! E tantas outras coisas!
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A indignação actual dos médicos não é só salarial, esqueça isso quem assim o pensa. É pela garantia da qualidade dos serviços, pela manutenção do SNS, a bem dos portugueses.
Não há pachorra! Por isso esta semana haverá a manifestação mais evidente para todos, uma greve dos médicos, convocada pelos sindicatos e Ordem dos Médicos. Há décadas que tal não acontece. Hão-de-nos ouvir, e oxalá arrepiar caminhos. Os utentes que nos compreendam.